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O verdadeiro teste de uma marca não está no pitch do fundador, nem na bio do Instagram. Está na boca do cliente. O que as pessoas dizem sobre você quando você não está presente? Elas conseguem resumir sua proposta em uma frase? Elas sabem indicar você com confiança? Ou hesitam, engasgam, inventam?

Uma marca clara é aquela que se explica sozinha. Que tem mensagem tão bem alinhada entre o que é dito e o que é feito, que o cliente vira um porta-voz natural. Quando isso acontece, o branding não fica restrito ao marketing. Ele ecoa nas conversas, nas recomendações, no boca a boca.

Mas quando a mensagem não se replica com facilidade, é sinal de desalinhamento. Pode ser um posicionamento vago, um discurso genérico, uma promessa que não se sustenta na experiência. E nesse ruído, perde-se conexão.

Uma boa maneira de testar a clareza da sua marca é usar o framework mais simples (e mais eficiente):

  1. Quem somos? — a essência, o papel que você ocupa no mundo.
  2. O que fazemos? — a proposta de valor concreta, o que você entrega.
  3. Por que isso importa? — a razão emocional ou funcional que torna sua existência relevante para o cliente.

Se você (ou sua equipe) não consegue responder essas três perguntas com fluidez, provavelmente seu cliente também não consegue. E aí, por mais bonita que esteja a identidade visual, por mais frequentes que sejam os posts, sua marca ainda não existe de verdade na mente das pessoas.

Em projetos com PMEs, é comum ver uma transformação quando esse trio de perguntas é respondido com precisão. A comunicação se alinha, o time se engaja, o cliente entende. E então, finalmente, a marca ganha forma fora dos muros da empresa.

Porque marca que precisa ser explicada demais, raramente é lembrada. Mas a que faz sentido, essa sim, se espalha sem esforço.

Nem sempre o crescimento de uma marca vem de grandes verbas ou campanhas mirabolantes. Muitas vezes, ele nasce de uma decisão certeira de branding. Escolhas que alinham posiciões, provocam conversa, geram afeto e deixam claro: essa marca é diferente.

Aqui estão três exemplos de marcas que deram saltos significativos por apostarem em direções ousadas e consistentes:

  1. UseHuck: transformar reputação pessoal em identidade de marca Quando Luciano Huck lançou a UseHuck, a estratégia não foi apenas vender camisetas. A marca partiu de uma ideia clara: transformar o que o público já via como parte da personalidade do apresentador — engajamento, leveza, brasilidade — em estética e narrativa.

O branding foi pensado para ampliar esse capital simbólico. O resultado foi uma identidade visual moderna, um storytelling que falava com o público jovem e um discurso social alinhado com causas. Uma escolha de posicionamento que fez a marca nascer grande, mesmo em um mercado saturado.

  1. Oatly: transformar um commodity em atitude Leite de aveia. Poderia ser apenas mais uma opção no supermercado. Mas a sueca Oatly transformou isso em cultura pop. Com um tom de voz provocador, embalagens com design irreverente e mensagens que misturam ironia e sustentabilidade, a marca virou uma lovebrand global.

A decisão de não falar apenas de sabor ou benefício nutricional, mas sim de visão de mundo, transformou o produto em manifestação de estilo de vida. É como explica Seth Godin em This is Marketing: “As pessoas não compram bens e serviços. Elas compram histórias, relações e significados”. A Oatly entendeu isso perfeitamente.

  1. Sallve: usar transparência como diferencial estratégico A marca de cosméticos brasileira Sallve apostou em uma comunicação radicalmente transparente. Com linguagem acessível, abertura para escutar os clientes e participação ativa da comunidade na cocriação de produtos, a marca virou referência em proximidade e escuta ativa.

A escolha de abrir os bastidores, mostrar erros, explicar ingredientes e deixar a comunidade participar das decisões foi um movimento ousado. E muito potente para gerar pertencimento. Hoje, a marca não é apenas um ecommerce: é uma comunidade.

Esses exemplos mostram que branding de verdade é sobre decisões que colocam a marca em movimento. Que alinham intenção com ação, estética com estratégia, promessa com experiência.

Porque crescer, no fim, é mais sobre coerência do que sobre volume. E marcas pequenas, quando escolhem com clareza, podem se tornar gigantes no coração do público.

Em um mundo onde a escala parece ser o grande objetivo, muitas marcas locais estão mostrando que a força está na raiz, não no tamanho. Pequenos negócios, ao entenderem e valorizarem seu território, estão construindo comunidades mais leais e apaixonadas do que muitas multinacionais com orçamentos milionários.

O motivo? Proximidade.

Enquanto gigantes tentam parecer humanas, marcas locais são humanas por natureza. Conhecem seus clientes pelo nome, falam a mesma língua, entendem os costumes e particularidades de cada região. Elas se comunicam com sotaque, com afeto, com verdade.

Quando falamos em branding, isso é poderoso. Porque a marca não vive apenas no que é dito — ela vive no que é sentido. E o senso de pertencimento é um dos sentimentos mais fortes que uma marca pode despertar.

Marcas como a Pão com Linguiça, em Belo Horizonte, que fazem piadas internas da cidade e criam um cardápio que é quase um dicionário de gírias mineiras. Ou pequenos coletivos de moda em Recife que utilizam estampas inspiradas em festas locais, ritmos e expressões populares. Ou ainda padarias em cidades do interior que mantêm nomes de clientes no caderno e sabem o tipo de pão que cada um gosta.

Esse tipo de relação vai muito além da transação comercial. É sobre fazer parte da vida das pessoas. E como afirma Afdhel Aziz em Good is the New Cool, “as marcas precisam deixar de interromper e começar a contribuir”. As pequenas que entendem isso passam a criar valor simbólico, emocional e cultural. Elas viram referências locais.

O branding da proximidade é um superpoder das PMEs. Elas têm liberdade para adaptar, testar, conversar diretamente com o público. Podem se posicionar de forma autêutica, sem precisar da aprovação de dezenas de níveis hierárquicos.

Enquanto grandes empresas gastam fortunas tentando criar conexão, muitas pequenas já nasceram conectadas. Basta reconhecer isso como estratégia.

Porque no fim, marca não é sobre domínio de mercado. É sobre espaço afetivo.

No mesmo bairro, duas cafeterias. Ambas servem café de qualidade, têm local aconchegante e preços parecidos. Mas uma delas está sempre cheia, com fila na porta e seguidores engajados nas redes. A outra, com sorte, preenche algumas mesas nos fins de semana. Qual é a diferença?

Não é o café. É a marca.

A cafeteria que cresce não está apenas vendendo espresso. Ela vende um estilo de vida, uma atmosfera, uma promessa. Ela tem nome memorável, identidade visual coerente, uma narrativa clara: você sabe o que esperar ao entrar ali. Sabe o tipo de público que frequenta, o tom com que eles falam nas redes, o sentimento que fica após a visita. A outra? Apenas serve café.

A diferença entre marcas que crescem e marcas que desaparecem está no quanto conseguem ser percebidas como algo maior do que o produto.

Como bem colocou Marty Neumeier em ZAG: “Quando todo mundo ziguezagueia, faça o oposto”. O crescimento, segundo ele, vem da diferença clara e sustentada — não da tentativa de agradar a todos ou copiar quem já está no topo. Essa diferença, no caso das marcas fortes, nasce de uma proposta bem definida, de um posicionamento nítido e de uma comunicação que reforça tudo isso com consistência.

Vamos comparar:

Cafeteria A (marca viva):

  • Nome criativo e cheio de personalidade.
  • Feed nas redes que mistura bastidores, curiosidades e depoimentos.
  • Ambiente que expressa o mesmo estilo presente na comunicação.
  • Atendimento com tom de voz alinhado à marca.
  • Presença em eventos do bairro, cria conexões.

Cafeteria B (marca ausente):

  • Nome genérico, igual a muitos outros.
  • Redes sociais focadas apenas em preço e cardápio.
  • Ambiente sem identidade clara.
  • Atendimento mecânico, sem empatia.
  • Nenhuma iniciativa para se tornar parte da comunidade.

O resultado está nos dados: fidelização, recomendação orgânica, ticket médio maior. A Cafeteria A não está apenas servindo café. Ela está construindo significado.

No fundo, toda PME tem essa escolha: competir por preço ou por percepção. Quem aposta apenas no produto corre o risco de desaparecer na multidão. Quem aposta na marca cria espaço próprio na memória do cliente.

Porque, no fim, ninguém volta apenas pelo café. A gente volta pelo que sentiu ali.