Se você já abriu o Instagram da sua empresa e pensou “uau, batemos 10 mil seguidores!”, mas no fim do mês o caixa continuou com cara de “tô triste”, bem-vindo ao clube das métricas de vaidade. Elas são sedutoras porque são fáceis de ver, fáceis de comemorar e… fáceis de não virar nada.
O ponto é: PME não tem tempo (nem orçamento) para marketing que não conversa com o negócio. E é aqui que métricas sem vaidade entram como bússola: elas conectam marketing com vendas, margem, retenção e crescimento sustentável — de preferência com propósito e consistência.
Vamos separar o que é “barulho” do que é “sinal”, e montar um painel simples e prático para você medir o que realmente importa.
Vaidade vs. valor: a diferença que muda seu marketing
Métricas de vaidade são números que podem até indicar visibilidade, mas não explicam impacto. Exemplos clássicos:
Elas não são “inúteis” — só são insuficientes. O problema é quando viram objetivo.
Métricas de valor (ou métricas de negócio) respondem perguntas mais duras e úteis:
Estamos atraindo as pessoas certas?
O marketing está pagando a conta?
O cliente volta?
Estamos crescendo com saúde (margem e caixa) ou com ansiedade?
Aqui entra um princípio bem prático: marketing bom reduz incerteza. Se suas métricas não ajudam a decidir o próximo passo com clareza, provavelmente é vaidade.
A régua que a PME precisa: métricas que orientam decisão
Em vez de medir “tudo”, a PME precisa medir o suficiente para decidir melhor. Uma forma simples:
1) Uma métrica-mãe (a “North Star”)
O time de growth popularizou a ideia de escolher uma métrica central que represente valor entregue e crescimento sustentável (um conceito muito trabalhado no pensamento de experimentação e foco em alavancas do crescimento, como em Hacking Growth, de Sean Ellis e Morgan Brown).
A North Star muda conforme o modelo de negócio, mas tem uma regra: não pode ser vaidade.
Exemplos de boas North Stars:
E-commerce: pedidos/mês com margem mínima
Serviço (clínica, estética, consultoria): clientes recorrentes/mês
SaaS: usuários ativos semanais que atingem “momento de valor”
Negócio local: número de compras repetidas por cliente em 90 dias
Se você quiser ser ainda mais “PME raiz”: escolha uma North Star que conecte receita + repetição.
O painel essencial: 12 métricas que quase toda PME deveria acompanhar
A seguir, um painel “enxuto porém nervoso”. Não precisa usar todas — mas se você escolher bem, vai parar de discutir likes e começar a discutir crescimento.
Aquisição (eficiência para trazer gente certa)
CAC (Custo de Aquisição de Cliente)
Quanto custa, em média, para conquistar um cliente.
Fórmula simples:
CAC = (Investimento em marketing + vendas) / nº de novos clientes
CPA (Custo por Ação) ou CPL (Custo por Lead)
Útil para etapas intermediárias, desde que você ligue ao que vem depois. Lead barato que não vira cliente é só… lead barato.
Taxa de conversão por etapa do funil
Ex.: visita → lead → reunião → proposta → venda.
Aqui, o ouro é entender onde está o vazamento.
Dica Tweed: se você não tem CRM, comece com uma planilha e disciplina semanal. O primeiro salto não é ferramenta: é rotina.
Receita e retorno (marketing pagando a conta)
ROI de campanha (ou ROAS, quando for mídia)
PME esperta olha ROI com margem, não só com faturamento. Vender muito com margem ruim é “crescer cansado”.
Payback de CAC (tempo para recuperar o CAC)
Em quanto tempo o lucro do cliente paga o custo de adquiri-lo.
Se o payback é longo demais, você cresce com aperto de caixa.
LTV (Lifetime Value)
Valor que um cliente gera ao longo do tempo.
O LTV é primo direto da retenção.
Regra prática: se você não conhece seu LTV, seu CAC é um palpite caro.
Retenção e lealdade (onde o crescimento fica adulto)
Taxa de recompra / retenção
Em 30, 60, 90 dias (ou por ciclo do seu negócio).
Retenção é o “motor silencioso” de crescimento: melhora LTV, reduz pressão em aquisição e estabiliza caixa.
Essa visão conversa com um ponto importante sobre crescimento real: muitas marcas superestimam “fãs” e subestimam o básico de disponibilidade e repetição de compra — uma discussão muito forte sobre como marcas crescem no mundo real em How Brands Grow, de Byron Sharp.
Churn (para assinatura e recorrência)
Quantos clientes cancelam por mês/ano.
Churn alto faz qualquer campanha virar “esteira”: você corre e não sai do lugar.
NPS ou CSAT (satisfação)
Não é “número para pôster”; é alarme de risco e bússola de melhoria.
Só cuide para não virar vaidade também: NPS precisa estar ligado a ações (por que caiu? o que mudou?).
Marca e demanda (o que sustenta o futuro)
Share of Search (buscas pela marca vs. categoria)
Para muitas PMEs, é um termômetro acessível: se mais gente procura sua marca, você está construindo memória e preferência. (E sim: isso costuma aparecer antes do caixa reagir.)
Tráfego direto e recorrente
Quando cresce, costuma sinalizar lembrança de marca e confiança.
Taxa de conversão de “primeira compra” para “segunda compra”
Essa é brutal e poderosa: mostra se a experiência entrega o que a promessa vende.
Aqui entra uma visão bem alinhada com branding como sistema de promessas + experiência, e não só “identidade visual”. Esse tipo de coerência é base do que Laura Busche defende em Lean Branding: marca como algo vivo, ajustado por feedback e evidência — e métrica é parte disso.
Métricas com propósito: medindo crescimento sem perder a alma
PME com propósito não mede só “quanto vendeu”, mede também:
Qual tipo de cliente estamos atraindo?
Esse crescimento está alinhado ao jeito que queremos existir no mundo?
A experiência está respeitando o cliente e o time?
Você pode traduzir propósito em números sem virar “planilha espiritual”. Exemplos:
% de vendas de linhas sustentáveis / sociais
Taxa de recompra de clientes que compraram a linha “impacto”
NPS por segmento (para ver se o propósito está sendo percebido)
Taxa de devolução / reclamação (como indicador de promessa vs. entrega)
Esse olhar conecta bem com o movimento de marketing mais consciente e significativo — tema central em Good Is the New Cool, de Afdhel Aziz e Bobby Jones, onde propósito não é slogan: é prática percebida.
Três “armadilhas de vaidade” que pegam PMEs todo dia
1) Comemorar leads sem qualidade
“Geramos 500 leads!”
Legal. Quantos viraram vendas com margem? Quantos voltaram?
Cura: medir taxa de conversão por fonte e CAC por canal.
2) Achar que engajamento é demanda
Comentário e curtida são sinais… mas não necessariamente intenção.
Cura: ligar conteúdo a ação rastreável: clique, cadastro, orçamento, compra, retorno.
3) Misturar tudo e não atribuir nada
Quando tudo dá “um pouco de resultado”, ninguém sabe o que funciona.
Cura: começar simples:
Casos práticos (bem pé no chão) de PMEs que viraram o jogo ao medir certo
Caso 1: A cafeteria que parou de “caçar curtida” e começou a construir recorrência
Antes: foco em seguidores e posts virais de “latte bonito”.
Sintoma: movimento bom no fim de semana, fraco durante a semana.
Métrica que mudou tudo:
Ação: programa simples de fidelidade + comunicação no WhatsApp com oferta “segunda a quinta”.
Resultado prático: menos dependência de pico e mais estabilidade.
Caso 2: Clínica que descobriu que anúncio não era o problema — o funil era
Antes: “ads não funciona”.
Métricas novas:
Ação: resposta em até 5 minutos + confirmação automática + conteúdo pré-consulta.
Efeito: mesmo investimento, mais consultas realizadas.
Aqui, marketing e operação viraram a mesma conversa (o que é muito alinhado à ideia de experiência como parte do marketing).
Caso 3: E-commerce pequeno que cresceu reduzindo CAC com retenção (não com mil campanhas)
Antes: só olhava ROAS.
Métricas novas:
Ação: pós-compra com recomendação de uso + kit complementar com margem melhor.
Efeito: mais lucro por cliente, CAC “aceitável” ficou maior, e o crescimento parou de depender de promoção eterna.
Como montar seu dashboard sem enlouquecer (rotina simples)
Frequência semanal (30 minutos)
Frequência mensal (60–90 minutos)
LTV (estimado) e payback de CAC
Retenção / recompra
Margem por produto/serviço
Aprendizados: o que manter, o que cortar, o que testar
Se você quiser uma regra de ouro bem “anti-caos”: toda métrica precisa ter um dono e uma ação possível. Se ninguém age com ela, ela vira decoração.
O ponto de virada: marketing deixa de ser “criação” e vira “gestão”
Criar conteúdo e campanha é importante. Mas, para PME, a maturidade real aparece quando marketing vira um sistema de decisões: o que priorizar, onde investir, o que parar, o que repetir.
E um detalhe que muita gente ignora: métrica não mata criatividade — ela protege. Protege seu tempo, seu caixa e sua energia de ficar perseguindo aplauso em vez de construir marca e negócio.
Se você quiser começar hoje, escolha:
1 North Star
3 métricas de aquisição (CAC, conversão, canal)
2 métricas de retenção (recompra/retensão + LTV ou churn)
1 métrica de marca (share of search ou tráfego direto)
Pronto. Você já está jogando um jogo diferente.